sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Palavras com sexo

Quando escrevemos, poetizamos ou simplesmente maltratamos as palavras, deixamos um rasto que nos parece definir… Há quem defenda isso…
Pode ser possível observar o sexo das palavras? Passamos muito para lá do sexo dos anjos, transcendência perfeita para o mundo do desabafo, da divagação ou da mais pura das liberdades criativas.
Este é o meu primeiro texto e talvez queira que se torne uma pequena provocação.
A escrita tem sexo? Será possível deduzir, pelas palavras, que do outro lado do texto se encontra um autor ou uma autora?
Há quem assim o pense…
A base de inspiração para este texto, não teve origem directa em mim, com grande pena minha, aliás. Um amigo de infância, que também gosta de brincar com palavras e que tem a “mania” de ser poeta (risos) foi como que acusado de pertencer ao “terceiro sexo”, ao ter capacidade para escrever um belo poema.
Será que um homem passa de herero a bi só porque demonstra sentimentos e capacidade de observação? Ou será que um hétero é mesmo porco, feio e mau? Alguns são bem giros...
Confesso que no que me diz respeito, perfeitamente seguro do que sou e de quem sou, não me senti afectado pelo sexo da escrita desse meu amigo… achei graça e lancei muito certamente um sorriso misto malandro, misto maldoso, provavelmente encolhi os ombros e terei voltado a sorrir.
Serão todos os distintos escritores e escritoras de romances, policiais ou de aventura, detentores do terceiro sexo por descreverem um acto de amor ou sexual, ou simples interacção entre personagens e descreverem a “acção” numa forma que nos permite visualizar o enredo como se estivéssemos a assistir a um filme? Um homem que descreve bem um homem ou uma mulher que descreve bem uma mulher… Um homossexual ou uma lésbica não terão capacidade de escrever uma luta, uma guerra, uma tese cientifica?  Não, nada disso me parece fazer qualquer sentido…
Sexo A, B, ou C, no corrente estado de evolução parece-me errado, preconceituoso e assustador, uma regressão da nossa evolução, onde já não caçamos ursos… e onde, a sexualidade de cada um apenas diz respeito ao próprio, não definindo a pessoa que é, nem tão pouco merece relevo. podemos mostrar pela escrita que somos inteligentes, que sabemos escrever ou que simplesmente queremos passar um bom bocado e partilhar momentos com outros, sem que alguém use as nossas palavras e nos dispa para ver o sexo… ou se o quiserem… despir-me… eu até que ajudo… mas mandem fotografias de corpo inteiro… prometo fazer uma boa selecção…
Em todo o caso, se as palavras têm sexo, eu quero ter muitas… vou passar suavemente minhas mãos, dedos, língua e boca… vou tentar ser o melhor dos amantes, dos amigos, levá-las ao sétimo céu e fazê-las felizes...
Não sou um poeta, poesia nas minhas mãos pouco mais seria que um pedregulho ao luar… Assim, não necessitaria então de, como esse meu amigo, usar um aftershave mais poderoso ou palavras mais duras despidas de virtuosidade… vou usar antes um bom creme e afastar as rugas, não que as tenha...
Eu gosto de abusar das letras, pontuação e gramática…
Em todo o caso o texto já vai longo… e,
Se as palavras têm sexo, usem-nas com amor.

5 comentários:

  1. Roubo-te este parágrafo magnificamente belo: "Em todo o caso, se as palavras têm sexo, eu quero ter muitas… vou passar suavemente minhas mãos, dedos, língua e boca… vou tentar ser o melhor dos amantes, dos amigos, levá-las ao sétimo céu e fazê-las felizes..." Ele resume, de maneira plena, tudo o que aqui disseste!

    Beijo grande aqui do outro lado do Atlântico.

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    1. E sempre, mas sempre "(...) com amor" Obrigado Paulo

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